9 de fevereiro de 2014

Havia um rio aqui...

Há um tempo atrás escutei um debate em que diziam que os rios nas cidades eram considerados problemas pois viravam esgoto a céu aberto e, em geral, no entorno deles se instalavam favelas. Para esconder o problema, ao invés de resolver a questão da poluição, os governantes preferiram canalizar a grande maioria dos rios e córregos, criar ruas em cima deles, nascentes foram degradadas. Os rios maiores foram transpostos conforme a vontade do homem e do que ele considera progresso, como resultado vemos muitos rios diminuírem sua vazão, áreas secas e em épocas de chuvas vários focos de alagamento.

Apesar de muito se falar da importância da água, a sociedade pouco tem discutido o tratamento que está sendo dado aos nossos tão preciosos rios! 

Reproduzo abaixo esse texto da querida Luma Rosa do Blog Luz de Luma, yes party! 

Chuvas de verão. Saudades?


Enquanto lia o texto "Sagrada Gota" da Monica Othero onde ela diz das mudanças de um certo rio que antes era caudaloso e hoje é um rabisco de rio, lembrei-me de alguns rios da minha infância que praticamente viraram córregos.

Acho que todos vocês conhecem a mesma trajetória de vida de um rio, pois não há cidade que eu visite, que algum morador venha contar do outrora grande rio que passava por ali. Para onde foram as águas desses rios?

Na minha cidade natal havia o Rio Mandu, que antes da inauguração dos Clubes Campestres, era a dor de cabeça para muitos pais na época do verão. Esse mesmo rio, em época das cheias provocava muitas enchentes. O Rio foi drenado, foi desviado para a construção de uma avenida e foram criados diques. Atualmente, cadê suas águas? O Rio secou e os diques estão lá para conter água nenhuma.

O Rio Mandu desemboca no Rio Sapucaí Mirim. Esse rio era capaz de sugar os aventureiros nadadores em seus redemoinhos. Foi ali que aprendi a nadar, após o naufrágio da canoa em que estava - eu era bem pequena e meus irmãos balançaram a canoa propositalmente até que ela virasse: "Assim ela aprende a nadar...", disse meu irmão. Faltava-nos  juízo!

Perto dali meu pai mantinha um rancho de pescaria e foi nesse mesmo lugar que aprendi a nadar, que meu pai perdeu um amigo que se afogou... Desse rio sumiram os peixes - lambaris, mandis, piaparas, curimbatas, entre outros, também por causa das dragas de exploração de areia; ele desbarrancou e agora quase que se nivela ao nível da terra.

Depois de tanto estrago e de ter perdido muito terreno nas beiradas dos rios, a Marinha (Operativa) do Brasil, vem exigir mais quinhão de terra dos proprietários de terras onde passam os rios, além é claro, do que o Ibama exige do que seja destinado para as reservas ambientais dentro ou fora da propriedade de terra rural. Independe se é no lugar onde as terras estão registradas, pois se atrapalha a lavoura, o agricultor pode comprar um terreno para fazer uma reserva florestal para o governo. Haveria de ser assim para condomínios de prédios e casas - uma fatia para plantar árvores frutíferas - Coisa que o governo deveria fazer no passado antes de fechar os olhos para o desmatamento.

Entra ano e sai ano, com a temporada de chuvas também é inaugurada uma temporada de tragédias. Foi-se o tempo em que o barulhinho da chuva era algo relaxante. E as águas da chuva pedem passagem, mas por qual caminho, se não existem mais os rios? A natureza segue seu curso e se os rios foram deflorados, ela invade as cidades. Simples assim.

REQUIEM POR UM RIO MORTO

Eu caminho lento
porque a estrada se fez mínima.
As pedras são fantasmas,
as árvores, monstros esquálidos,
com os braços já raquíticos
tentando, num abraço fúnebre,
parar um só vivente...
Sou eu...

Eu caminho lento
porque desabou o céu.
Os astros fundiram-se
numa poeira cósmica
que sufoca, impertinente,
um só vivente...
Sou eu...

A estrada fez-se mínima.
Sem pressa...
Sem medo...
Encontro-me na imensa necrópole
de um só túmulo.
Cova rasa,
cova grande,
cova pobre
de um morto universal.
Sem uma prece...
Sem uma flor...
Sem uma lágrima...

Prece?...
O som rouquenho
de gargantas metálicas
a vomitar, intermitente,
a alquimia digerida
de monstros distantes.

Flor?...
A brancura química
de espuma informe e fétida
que passeia, irreverente,
pelo dorso frio
deste morto universal.

Lágrima?...
Quisera eu chorá-la:
Uma lágrima imensa
que purificasse a mácula
deste morto milenar.
Uma lágrima que fosse o bálsamo divino
milagre novo de vida.

Prece?...
Eu quisera gritar agora...
Rolar pedras de todos os túmulos...
Desafiar as forças cósmicas...
Desrespeitar todas as leis físicas...
Desvendar todos os mistérios...
Invocar a divindade bíblica:
- Lázaro, levanta e anda!

- Meu Paraíba,
Rio de todos nós
Meu cadáver universal
Vive e deixe-nos viver!


Poema do Professor Antonio Maciel (in memorian), declamado por ocasião da "Missa in memorian a um Rio Morto", em 20 de setembro de 1981, na Ponte sobre o Rio Paraíba, em Caçapava, SP e posteriormente publicado nos "Cadernos das Faculdades Integradas Teresa D'Ávila / Lorena / Santo André" - n° 12.

Imaginam quantos poemas em memória dos rios poderíamos escrever? 

Progresso nem sempre quer dizer "qualidade de vida". Devemos repensar se realmente queremos indústrias e mais indústrias consumindo nossas águas e escaldando nossos solos de dejetos. Pois já não temos mais chuvas em uma época em que se inaugurava as chuvas de verão. Teremos que fazer a dança da chuva? Os reservatórios estão em baixa e muitas cidades na região Sudeste estão sem água e isso tende a se alastrar.

6ºC Essa é a previsão de aumento da temperatura média do Brasil até o final do século, a mesma variação registrado no Rio ao longo do mês de Janeiro.

Por duas vezes, no último mês, tive que tomar soro no hospital. Talvez se eu fosse mais gordinha, tivesse maior concentração de água no corpo e não me sentisse tão mal. O nosso corpo interage com o ambiente e a situação que estamos vivendo nos últimos dois meses, no mínimo serve de treinamento para o que virá.

O mundo não acabará com as mudanças climáticas, mas ficará bastante desagradável viver na terra. Desagradável não é nada se comparado ao que acontecerá na África, no Nordeste do Brasil e na Ásia. Insuportável será a seca, a fome por causa das plantações destruídas e os apagões, como os que aconteceram nessa semana que serão mais frequentes.

No Brasil, apenas 6% do total do volume de água que temos, estão em ótimas condições de uso e temos 12% de toda a água doce do planeta, levando em consideração que olhando a terra de cima, temos apenas 25% de água doce, o resto da água da terra é salgada. Vale dizer que 80% da nossa água se encontra na Amazônia e lá moram apenas 5% da população brasileira.

Você sabia que para produzir 1 xícara de café são necessários 140 litros de água? Sim, existe um processo até o café chegar pertinho de você. A carne de boi é vilã, pois consome a cada quilograma, 15.500 litros de água.

Não conseguimos economizar água e energia no presente, que dirá para o futuro, mas se existe uma poupança, ela deve ser feita contra o desperdício. Pense antes de comprar, pense no quanto de lixo você produz. Pense no peso das suas ações.

Sugestão de Leitura: "Lembranças de um Rio" - Texto do amigo blogueiro Vitorio Nani. #Superindico!!
Luma Rosa


Rios ocultos

Você Sabia que em São Paulo há mais de 300 córregos e riachos oficiais, mas a equipe do Projeto Rios e Ruas estima que esse numero é no mínimo o dobro, os paulistanos não os vêem porque a partir de 1930, com a intensificação da industrialização de São Paulo, os rios foram gradativamente cedendo lugar para as ruas e os automóveis. Como é proibido erguer um prédio em cima de um rio, para evitar a contaminação do lençol freático, a maioria fica sob o asfalto. O geógrafo Luiz de Campos Jr, um dos idealizadores do projeto, garante que nenhum paulistano mora a mais de 200 metros de um curso d’água.
Infográfico da Veja http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/rios-de-sao-paulo
O projeto organiza explorações pela metrópole com o objetivo de caçar essas águas enterradas vivas. Uma rua sinuosa, vielas, esquinas com muitos bueiros, paredes marcadas por enchentes são alguns indícios de que, naquele lugar, pode existir um rio. Leia mais a respeito em Tem um rio no meio do caminho - Veja.
Uma das expedições que participei em Julho/2012 com o projeto Rios e Ruas e Virada Sustentável ao Córrego Verde na Vila Madalena, um dos poucos lugares onde pode ser visto (perto do Beco do Batman), a maior parte está canalizada. No local costumam ocorrer muitas enchentes. Existe um projeto de parque linear para recuperar o espaço da nascente e drenar as águas das chuvas evitando enchentes. Conheça melhor o projeto deste parque linear através desse aquivo em PDF. Foto de arquivo pessoal.



O maior desastre natural causado pelo homem devido a transposição de rios

Situado entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, na Ásia Central, o Mar de Aral já foi o quarto maior mar interior da Terra, com 66 mil quilômetros quadrados. O desvio das águas dos rios Amu Daria e Sir Daria para projetos de irrigação das plantações de algodão, a partir de 1939 pelo governo da extinta União Soviética, consumiu 90% da água que chegava ao Aral, reduzindo-o a um terço do tamanho original. O que era fundo do mar transformou-se em deserto, com sérios impactos sobre a economia da região, especialmente a pesqueira. A população ainda tem que conviver com doenças resultantes das toneladas de área, sal e pesticidas espalhadas pelos ventos.
No Brasil vemos atualmente a transposição do Rio São Francisco onde está sendo gasto bilhões, mas pouco se estudou a respeito dos impactos ambientais e sociais. Há barragens entregues onde sequer se chega a água até o momento e os danos que estão sendo causados por essa obra são considerados irreversíveis. A WWF fez um estudo, disponível para download em inglês na homepage da organização (www.wwf.org.br), onde se dedica a descrever sete projetos de transposição já implantados, em implantação ou em discussão pelo mundo. À transposição do Rio São Francisco são dedicadas três páginas, onde são analisados argumentos favoráveis e contrários ao projeto. Apesar disso, o estudo da WWF é categórico ao afirmar que obras de transposição são sempre muito caras, trazem impactos negativos ao meio ambiente, comprometem fluxos naturais de rios e a capacidade dos cursos d’água de promover os usos múltiplos de recursos hídricos nas bacias doadoras de água, como abastecimento, navegação e irrigação.

Sobre o autor: Luciana Cantanhede Estudante de Biologia, Conselheira do Cades regional em São Paulo, busca através das temáticas ambientais conscientizar e incentivar a mudança de atitudes para práticas sustentáveis. Twitter | Facebook | Email

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